Obesidade: O novo inimigo do homem moderno

Postado em: 14/04/2014

A obesidade é hoje um dos principais problemas de saúde pública no Brasil. Para a Organização Mundial da Saúde (OMS) porém, essa disfunção já é considerada atualmente o maior desafio da sociedade contemporânea.

A obesidade é também fator de risco para diversas doenças e distúrbios. (Foto: Divulgação)Por simples definição, a obesidade é o acúmulo de gordura no corpo causado quase sempre por um consumo de energia na alimentação, superior àquela usada pelo nosso organismo para a sua manutenção e realização das atividades do dia a dia. Ou seja, a ingestão alimentar é maior do que a energia exigida pelo nosso corpo para realizar todas as atividades necessárias. 

Diversas explicações são apontadas para explicar as razões do porquê da população mundial e, em especial, a brasileira, estarem engordando tanto. 

As raízes evolucionistas do homem que, no passado e de forma inteligente, acabaram condicionando o corpo humano a armazenar gorduras para assegurar a sua sobrevivência em períodos de escassez, hoje ironicamente se voltam contra ele. 

As conquistas e facilidades da vida moderna, como geladeiras e freezers que conservam alimentos por longos períodos, associados ao advento dos fast-foods e serviços 24 horas de entrega em domicílio de quaisquer tipos de comida e, principalmente, aos apelos irresistíveis da propaganda, induzem o homem contemporâneo ao consumo de produtos altamente calóricos.

E como agravante, estimulada pelas confortáveis opções de transporte individual e/ou coletivo, a sociedade moderna está crescentemente refém da falta de atividade física e do sedentarismo.

PECULIARIEDADES

O grande desafio, portanto, é a reversão desse processo extremamente difícil num cenário em que o excesso de peso está associado a uma série de doenças que comprometem a qualidade e a duração da própria vida, como o diabetes, pressão alta, problemas nas articulações, dificuldades respiratórias, gota, pedras na vesícula e até algumas formas de câncer.

Para o médico endocrinologista, Tiago Correia Cavalcanti, do Hospital Nipo-Brasileiro, o tratamento mais adequado para a obesidade deve contemplar necessariamente uma abordagem multidisciplinar que integre médicos, psicólogos e, principalmente, nutricionistas, com o suporte de dietas, medicamentos (quando necessários), atividades físicas e uma qualidade de vida saudável.

Ele esclarece ainda que o organismo humano ao longo de seu desenvolvimento acaba sendo uma expressão das diferentes interações entre o seu patrimônio genético herdado de seus pais e ancestrais e os ambientes social, econômico, cultural, individual e familiar.

Dessa forma, um determinado indivíduo acaba apresentando diversas peculiaridades que o diferenciam em relação à sua saúde e nutrição.

Para o especialista do HNB, a obesidade é resultante dessas diversas interações determinadas pelos aspectos genéticos, ambientais e de comportamento. Nesse sentido, filhos com pais obesos apresentam alto risco de obesidade, assim como determinadas mudanças sociais estimulam o aumento de peso em todo um grupo de indivíduos.

Pesquisas científicas recentes focadas nas causas do aumento de peso revelaram que em sua maioria, decorrem em função de uma conjunção de fatores. Porém, apesar disso, o aumento de peso está sempre associado a um aumento da ingestão alimentar e a uma redução do gasto energético relativo e exigido para o seu processamento.

O gasto de energia, nesse caso, pode estar associado a características genéticas ou dependente de vários fatores clínicos e endócrinos, incluindo doenças que provocam a obesidade por razões hormonais.

De maneira geral, de acordo com suas causas, a obesidade pode ser assim classificada:

  • Obesidade por Distúrbio Nutricional: dietas ricas em gorduras e dietas de lancherias;
  • Obesidade por Inatividade Física: incapacidade obrigatória e idade avançada;
  • Obesidade Secundária a Alterações Endócrinas: Síndromes Hipotalâmicas; Síndrome de Cushing; Hipotireodismo;
  • Ovários policísticos; Pseudohipparatireodismo; Hipogonanismo; Déficit de hormônio de crescimento; e aumento de insulina e tumores pancreáticos produtores de insulina;
  • Obesidades Secundárias: Sedentarismo; drogas, como psicotrópicos, corticóides, antidepressivos tricíclicos, lítio, fenotiazinas, ciproheptadina, medroxiprogesterona; cirurgia hipotalâmica;
  • Obesidades de Causa Genética: Autossômica recessiva; ligada ao cromossomo X; cromossômicas (Prader-Will); e síndrome de Lawrence-Moon-Bied.

TRATAMENTO

Um tratamento da obesidade básico deve contemplar necessariamente ações permanentes de reeducação alimentar, de atividades físicas e, eventualmente, suporte de medicamentos e dependendo do quadro do paciente, poderá ser indicado também um acompanhamento psiquiátrico. “Para manter o peso dentro dos valores desejáveis, não existe mágica! A melhor opção é adotar uma alimentação balanceada e praticar regularmente atividades físicas”, esclarece o Dr. Tiago Correia Cavalcanti.

Segundo ele, um significativo entrave hoje existente em relação à abordagem ideal para o tratamento da obesidade é o fato de que nem todos os planos de saúde cobrirem as consultas com nutricionistas.

Porém, independente do tratamento proposto, a reeducação alimentar é fundamental, uma vez que, através dela, a ingestão total de calorias e o ganho calórico dela decorrente serão reduzidos. Esse processo pode exigir um suporte de ordem emocional e/ou social, através de tratamentos específicos, como psicoterapia individual, em grupo ou familiar. Apesar disso, porém, a orientação dietética é fundamental.

Segundo ainda o Dr. Tiago, dentre as diversas alternativas de orientação dietética, a mais aceita cientificamente é a dieta hipocalórica balanceada, através da qual o paciente receberá uma dieta calculada com quantidades calóricas dependentes de sua atividade física, sendo os alimentos distribuídos em 5 a 6 refeições por dia, com aproximadamente 50 a 60% de carboidratos, 25 a 30% de gorduras e 15 a 20% de proteínas.

Não são recomendadas dietas muito restritas, como por exemplo, com menos de 800 calorias, em razão de apresentarem riscos graves, como alterações metabólicas, acidose e arritmias cardíacas. Da mesma forma, deve-se evitar também dietas com apenas alguns alimentos, como por exemplo, a dieta do abacaxi, ou ainda, somente com líquidos, como a dieta da água, por apresentarem diversos problemas. Dietas com excesso de gordura e proteína também são bastante discutíveis, uma vez que pioram as alterações de gordura do paciente, além de aumentarem a deposição de gordura no fígado e outros órgãos.

Paralelamente, o paciente deve ser orientado a realizar exercícios físicos regularmente, de 30 a 40 minutos, pelo menos quatro vezes por semana, inicialmente de forma leve e a seguir, moderada. Estes exercícios, em algumas situações, podem exigir acompanhamento profissional e local especializado. Porém, na maioria dos casos, a recomendação de simples caminhadas diárias já assegura grandes benefícios ao paciente, além de provocar uma indispensável mudança no seu estilo de vida.

Dentre os diversos efeitos gerados pela prática rotineira de exercícios, podemos destacar a diminuição do apetite do obeso; o aumento da ação da insulina; a melhora do perfil de gorduras; a melhora da sensação de bem-estar; e o resgate de sua autoestima.

Nesse sentido, o especialista do HNB destaca a importância de uma dieta saudável já na infância, a fim de evitar que as crianças apresentem problemas de peso, associada a ações típicas de qualidade de vida, como a prática de atividades físicas, lazer, relacionamentos afetivos e estrutura familiar adequadamente ajustados.

E, por último, porém, não menos importante, o Dr. Tiago adverte sobre o uso preponderante de medicamentos no tratamento de pacientes obesos. Além da perda da eficácia ao longo do tempo, esses medicamentos podem provocar possíveis efeitos colaterais em razão de suas respectivas composições farmacológicas, alguns deles graves, como as arritmias cardíacas, surtos psicóticos e dependência química.

Adicionalmente, ele acrescenta que o uso de diversas substâncias no tratamento medicamentoso da obesidade, como diuréticos, laxantes, estimulantes ou sedativos, frequentemente tratadas como “fórmulas para emagrecimento”, não tem nenhum respaldo científico. Além de perigosa, essa alternativa de tratamento, a longo prazo, não apresenta nenhum benefício ao paciente, que pode acabar ganhando mais peso ou, no mínimo, voltar a seu peso anterior.

RISCOS

A obesidade é também fator de risco para uma série de doenças ou distúrbios, discriminados a seguir, que acabam provocando uma diminuição significativa da expectativa de vida dos pacientes, principalmente quando portadores de obesidade mórbida.

Doenças: hipertensão arterial; doenças cardiovasculares; doenças cérebro-vasculares; diabetes mellitus II; câncer;
osteoartrite; e coledocolitíase.

Distúrbios: lipídicos; hipercolesterolemia; diminuição do HDL “colesterol bom”; aumento da insulina; intolerância à glicose; distúrbios menstruais e infertilidade; e apneia do sono.

DIAGNÓSTICO

Adotada pela Organização Mundial da Saúde, a fórmula atualmente utilizada para a determinação do Índice de Massa Corpórea (IMC) estabelece a divisão do peso da pessoa (Kg) pelo quadrado da sua altura (m2). O resultado revela se o peso está dentro da faixa ideal, abaixo ou acima do ideal, conforme quadro a seguir:

IMC (Kg/m2)

- 18 a 24,9: Saudável
- 25 a 29,9: Sobrepeso ou Pré-Obesidade
- 30 a 34,9: Obesidade Nível I
- 35 a 39,9: Obesidade Nível II
- Acima de 40: Obesidade Nível III (Mórbida)


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