Dislipidemia

Postado em: 08/06/2016

Já ouviu falar em “Dislipidemia”, popularmente conhecida como “colesterol alto”? A endocrinologista do Hospital Nipo-Brasileiro (HNB), Dra. Elza Ikejiri, dá uma aula sobre o tema. Confira!

O que é dislipidemia?

A dislipidemia é um quadro clínico caracterizado por concentrações anormais de lipídios ou lipoproteínas no sangue e é determinado por fatores genéticos e ambientais.  Evidências demonstram que os níveis elevados de colesterol total, LDL-colesterol e triglicerídeos, assim como níveis reduzidos de HDL-colesterol estão relacionados com maior incidência de doenças cardiovasculares, especialmente infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral.

A prevalência de dislipidemia tem aumentado mundialmente devido a hábitos alimentares com dietas ricas em gorduras saturadas, número cada vez maior de obesidade e sedentarismo.  No grupo infantil e de adolescentes esta prevalência varia no mundo todo entre 2,9 a 33%, porém existem trabalhos em regiões do Brasil chegando a uma prevalência alarmante de até 60%.

Crianças e adolescentes devem realizar exames para colesterol?

Os exames devem ser realizados mesmo em crianças de tenra idade, especialmente se apresentam fatores genéticos fortes para a presença de dislipidemia. Esta preocupação para rastreamento precoce desta anormalidade é devido a achados de placas de aterosclerose em aorta de crianças de até 3 anos de idade.

Crianças a partir de 2 até 10 anos devem realizar o perfil lipídico quando apresentar familiares (pais ou avós) com história precoce de doença arterial isquêmica; pais com colesterol total acima de 240 mg/dl; ou apresentem outros fatores de risco como diabetes mellitus, obesidade, doença renal crônica, hipotiroidismo e uso de medicações que alteram o perfil lipídico.

Em crianças acima de 10 anos é recomendável a dosagem do colesterol total ao menos uma vez, independente da presença de fatores de risco.

Em adultos acima de 20 anos recomenda-se um perfil completo de lipoproteínas em jejum pelo menos a cada 5 anos.

Como é feito o diagnóstico de dislipidemia?

O diagnóstico de dislipidemia é baseado na determinação sérica do perfil lipídico que compreende o colesterol total (CT), lipoproteína de alta densidade ou HDL-colesterol (high density lipoprotein), triglicerídeos (TG) e lipoproteína de baixa densidade ou LDL-colesterol (low density lipoprotein). 

O diagnóstico de dislipidemia em indivíduo que não sabia ser portador de tal alteração deve ser sempre confirmado pela repetição de novos exames.

O que são os lipídios?

Lipídio é um termo genérico que inclui substâncias que não são solúveis na água.

Os lipídios biologicamente mais relevantes são os fosfolípides, o colesterol, os triglicerídeos e os ácidos graxos.

Os triglicerídeos são compostos por três ácidos graxos ligados a um glicerol e constituem umas das formas mais importantes de armazenamento energético no organismo, depositados nos tecidos adiposos e muscular.

Os fosfolipídios são compostos por uma molécula de glicerol ligada a dois ácidos graxos e um fosfato e formam a estrutura básica das membranas celulares.

O colesterol possui uma estrutura diferente dos demais lipídios. É composto por um núcleo esteróide em forma de anel com uma radical hidroxila.  O colesterol é importante precursor para a síntese dos hormônios sexuais (estrógeno, andrógenos e progesterona) e dos hormônios adrenocorticais, além dos ácidos biliares e da vitamina D. Também é constituinte estrutural das membranas celulares.  O colesterol pode ser sintetizado pelo fígado ou então pode ser ingerido através de alimentos de origem animal (não encontramos colesterol em alimentos de origem vegetal).

O bom e mau colesterol.

Como os lipídios ou gorduras não são solúveis no plasma, elas são acopladas a proteínas chamadas apolipoproteínas para permitir o seu transporte e livre circulação no plasma. Este agregado de gorduras (triglicerídeos, colesterol ou fosfolipídios em proporções variadas) acoplado a uma apolipoproteína são chamados de lipoproteínas.

Existem quatro grandes classes de lipoproteínas, separadas em dois grupos: 1) as ricas em triglicerídeos, maiores e menos densas, representadas pelos quilomicrons, e pela lipoproteína de densidade muito baixa ou very low density lipoprotein (VLDL); e (2) as ricas em colesterol, incluindo as de densidade baixa ou very low density lipoprotein (LDL) e as de densidade alta ou high density lipoprotein (HDL). A LDL-colesterol é comumente chamada de mau colesterol e a HDL-colesterol é comumente chamada de bom colesterol.

O HDL-colesterol é chamado de bom colesterol devido a sua capacidade de realizar o chamado transporte reverso do colesterol, isto é, ele faz a captação de colesterol de tecidos periféricos (como tecido adiposo, músculo) e traz de volta para o fígado.

O LDL-colesterol é chamado de mau colesterol porque é altamente aterogênico. Fatores de risco como dislipidemia, tabagismo, hipertensão arterial, diabetes mellitus, agridem o endotélio vascular levando a uma maior permeabilidade da camada íntima às lipoproteínas plasmáticas. Estas partículas retidas na parede do vaso sofrem um processo de oxidação tornando-se altamente reativas, dando início a uma cascata complexa e ampliada de eventos inflamatórios que culminam com a formação da placa de aterosclerose.

A intensidade do depósito de lipoproteínas na parede arterial, que é a etapa fundamental de todo o processo de aterogenese, é proporcional à concentração destas lipoproteínas LDL-colesterol no sangue. 

Tratamento

O tratamento das dislipidemias envolve o tratamento não medicamentoso (terapia nutricional e mudanças de estilo vida) e tratamento farmacológico (uso de estatinas, resinas, ezetimibe).  As metas terapêuticas devem ser orientadas de acordo com a estratificação de risco de cada indivíduo.

A terapia nutricional e a mudança de estilo de vidas são de grande utilidade no tratamento e principalmente na prevenção das dislipidemias.

Estudos epidemiológicos sugerem uma associação positiva entre o consumo de ácidos graxos trans e ocorrência de doenças cardiovasculares. O consumo aumentado deste tipo de gordura trans (presentes em gorduras hidrogenadas, margarinas sólidas ou cremosas, cremes vegetais, sorvetes cremosos, biscoito e bolachas industrializadas, batatas fritas de fast food, massas ou qualquer outro alimento que contenha gordura hidrogenada entre seus ingredientes), e de gorduras saturadas (presentes em gorduras de origem animal, exceto peixes) constituem um importante fator de risco para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares. As gorduras provenientes de ácidos graxos trans aumentam o LDL-colesterol e reduzem o HDL-colesterol.

Em resumo, as recomendações básicas de acordo com o tipo de dislipidemia são:

Para redução do LDL colesterol contribuem com maior importância: a redução de ingestão de alimentos ricos em gorduras saturadas e gorduras trans, e o aumento de ingestão de fibras solúveis e fitoesterois.

Para redução das triglicérides contribuem com maior importância: a redução do peso corporal, redução de bebidas alcoólicas e de açúcares simples e de ingestão de carboidratos em geral, e o aumento da atividade física.

Para aumento dos níveis de HDL-colesterol: contribuem com maior importância: a redução de alimentos ricos em gorduras saturadas e gorduras trans, o aumento da atividade física, a redução de peso corporal, cessação do tabagismo, e diminuição da ingestão de bebidas alcoólicas.

Foto: Denis Fonseca

Dra. Elza Ikejiri é mestre em endocrinologia pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).


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